Costumo dizer que moram umas três ou quatro "Eus", dentro de mim. Assim de bate-pronto, consigo me lembrar de três, para descrever: Uma é metódica, cheia de tradições, moral e bons costumes. E chata, muito chata. A famosa empata-foda. Ela é quem corta todos os baratos, limita o uso de drogas e termina a balada cedo. É ela que fecha o caixa no fim da noite também, empilha todos os grampos, faz planilhas de Excel e contas na HP. E diz que a sua mãe ia ficar muito decepcionada se visse isso, e que eu vou ficar pobre pra sempre se continuar assim. Chata, chata, chata.
Tem outra que é meio louca, coitada. Não tem essa organização toda da primeira, se perde um pouco nas histórias, mas teoriza tudo. T-u-d-o. Aí, coitadinha, ela sofre de mania de perseguição! Gasta horas e mais horas juntando o dado de hoje, com o fato do mês passado, mais uma dose de intuição - sim, ela é a "vidente" da galera - e pronto! Cria teorias pra que as coisas mais absurdas façam sentido. Ou pra concluir algo "inconcluível". E sabe o que é pior? Quase sempre ela acerta! O grande problema é que isso não tem fim, e enquanto ela está concluindo que "talpessoafeztalcoisaportalmotivo", ou que o mundo conspira a favor de "X" ou contra ela, a vida vai passando.
Tem mais uma, que é gente boa pra caramba. Que diz "relaaaaaaaaaaxa beesha" e acha tudo normal. E ri, ri muito de todas as coisas. Porque tudo é engraçado e leve e experiência e funciona assim mesmo. E tem plena convicção de que não tem nada melhor que ter espírito jovem. E que ninguém vai viver a vida dela por ela, então bora aproveitar! E depois? Bom... depois a gente vai rir disso tudo mesmo, então aproveita, mesmo que isso não seja assim muito 'politicamente correto'.
Elas são todas falantes, e gritam sem parar. Eu, fico olhando de fora, assustada as vezes, com os berros que elas dão, todas ao mesmo tempo. As vezes eu respondo dando razão para uma ou para outra, as vezes deixo as três brigando e finjo que não estou ouvindo ninguém, ou dá vontade de expulsar todo mundo e ter um pouco de paz.
De vez em quando vem umas outras "Eu" visitar, mas logo vão embora. De vez em quando eu ouço Kate Nash, ou converso com as pessoas que também me contam de seus "eus", aí parece mais humano e normal, ter tanta gente morando dentro de um corpo só.