27 dezembro, 2010

Quantos eus cabem dentro de você?

Costumo dizer que moram umas três ou quatro "Eus", dentro de mim. Assim de bate-pronto, consigo me lembrar de três, para descrever: Uma é metódica, cheia de tradições, moral e bons costumes. E chata, muito chata. A famosa empata-foda. Ela é quem corta todos os baratos, limita o uso de drogas e termina a balada cedo. É ela que fecha o caixa no fim da noite também, empilha todos os grampos, faz planilhas de Excel e contas na HP. E diz que a sua mãe ia ficar muito decepcionada se visse isso, e que eu vou ficar pobre pra sempre se continuar assim. Chata, chata, chata.

Tem outra que é meio louca, coitada. Não tem essa organização toda da primeira, se perde um pouco nas histórias, mas teoriza tudo. T-u-d-o. Aí, coitadinha, ela sofre de mania de perseguição! Gasta horas e mais horas juntando o dado de hoje, com o fato do mês passado, mais uma dose de intuição - sim, ela é a "vidente" da galera - e pronto! Cria teorias pra que as coisas mais absurdas façam sentido. Ou pra concluir algo "inconcluível". E sabe o que é pior? Quase sempre ela acerta! O grande problema é que isso não tem fim, e enquanto ela está concluindo que "talpessoafeztalcoisaportalmotivo", ou que o mundo conspira a favor de "X" ou contra ela, a vida vai passando.

Tem mais uma, que é gente boa pra caramba. Que diz "relaaaaaaaaaaxa beesha" e acha tudo normal. E ri, ri muito de todas as coisas. Porque tudo é engraçado e leve e experiência e funciona assim mesmo. E tem plena convicção de que não tem nada melhor que ter espírito jovem. E que ninguém vai viver a vida dela por ela, então bora aproveitar! E depois? Bom... depois a gente vai rir disso tudo mesmo, então aproveita, mesmo que isso não seja assim muito 'politicamente correto'.

Elas são todas falantes, e gritam sem parar. Eu, fico olhando de fora, assustada as vezes, com os berros que elas dão, todas ao mesmo tempo. As vezes eu respondo dando razão para uma ou para outra, as vezes deixo as três brigando e finjo que não estou ouvindo ninguém, ou dá vontade de expulsar todo mundo e ter um pouco de paz.

De vez em quando vem umas outras "Eu" visitar, mas logo vão embora. De vez em quando eu ouço Kate Nash, ou converso com as pessoas que também me contam de seus "eus", aí parece mais humano e normal, ter tanta gente morando dentro de um corpo só.

23 dezembro, 2010

Paisagismo

Há momentos da vida que só ela salva: a boa e velha cara de paisagem.

Cara de paisagem é nada mais que a expressão de "coisa alguma", naqueles momentos onde expressar alguma coisa pode de alguma maneira, foder tudo. Uma expressão pode simplesmente estragar qualquer situação ou estratégia. Mostra todas as "vulnerabilidades".

Funciona muito naquelas horas de "eu sei o que vocês fizeram no verão passado", onde algum assunto rola solto e a culpa no cartório também. E se é tudo em off, então, olhe para o nada, como se contemplasse uma bela visão, sorria e acene, como se nada estivesse acontecendo, como se você não soubesse que tudo aquilo é mentira, ou que você fez o contrário daquilo que dizem, ou que vocês nem tivessem dormido juntos na noite passada, etc, etc.

A paisagem ainda salvará o mundo de todos os constrangimentos. Um viva ao estilo cara de pau de ser, pois se  aquela frase cafona "se não lembro, não fiz" procede, a variação "se eu finjo bem que não me lembro, eu não fiz" vale mais ainda!!!

10 dezembro, 2010

Chave

Cada um tem suas manias e seus apegos. Um dos meu grandes apegos na vida, é meu carro. Apesar de sujo, com umas coisas pra consertar, gasolina quase sempre na reserva e bagunça dentro, ele é MEU. Mexe comigo, mas não mexe no meu carro. Não dou, não vendo e principalmente: Não empresto.

Ou melhor, acho que empresto pra quem eu genuinamente confiar a ponto de entregar algo tãããão meu. Contabilizando, até hoje que eu me lembre apenas pessoas que compartilham o mesmo sangue que eu viraram a chave na ignição. E a exceção foi outro dia, no escritório, que meu carro estava onde era proibido, os guardas estavam multando, o Capi tava por ali visitando e se ofereceu pra tirar meu carro. Talvez tenha sido o meu maior ato de desapego do ano (e olha que esse ano eu tive muitos!), ou eu confio nele pra caralho mesmo.

O fato é que por essa coisa toda com o carro, muita gente nesses anos ficou magoadinha comigo, ou qualquer coisa assim, confundindo todas as coisas: gostar com confiar, confiar com "entregar", etc, etc.

Tem bastante gente que eu gosto, mas não confio. Tem gente que eu confio, mas não gosto. Tem - muita - gente que eu gosto e confio, mas não me entrego. E ok! Não desmerece, nem muda meu sentimento por ninguém. Não é assim tão difícil de compreender, é?! E tem uma parcela mínima da "minha população", pra quem eu realmente entrego a chave do carro...