25 janeiro, 2009

Abominável relógio

Não existe nada que eu sinta mais medo na vida que o tempo. Que a gente nunca sabe se tá correndo ou se tá devagar. Medo desse tempo que voa quando a festa é boa, o abraço é gostoso ou o jantar está uma delícia e que passa lento nas aulas chatas, na fila do banco ou quando você está apertado para fazer xixi. Esse tempo que nunca deixa eu cumprir tudo que eu quero, porque ele não me deixar aprender a organizá-lo. Ele que passa voando com as risadas das viagens de faculdade e demora pra me deixar passar no mestrado. Que me deixa esperando o homem da minha vida e que faz rapidinho o resto do mundo achar o seu. Que foi tão rápido enquanto meu pai estava aqui e demorava tanto nas cirurgias da minha mãe. Tempo que desorienta, se perde e me acorda atrasada pros mais importantes compromissos, ou que voa se eu tenho insônia e preciso levantar logo. Que é tão inflexível as vezes que frustra meus projetos, e tão amplo quando a gente recusa, que deixa qualquer um culpado.
Tempo chato que é incontrolável, e não tá nem aí se não vai dar pra fazer tudo, se vai deixar alguém esperando, se vai ser entediante, se tá fora dos planos, se vai dar pra casar e engravidar, se despedir, ou se alguém vai engordar e ter mais celulites por culpa dele. Que não dá pra zerar, nem pra parar.
E o pior de tudo... tempo que é inimigo da memória... que leva da gente cheiros, imagens, feições, lembranças, vozes. Cada segundo que passa por maior que seja o nosso esforço, ficam mais longe o cheiro de casa, a voz do pai, a feição dos amigos de infância, o som das risadas, as imagens das viagens boas. O maior medo é do tempo fazer a gente esquecer do que não volta.