Depois que você passa a trabalhar perto de casa, as chances de se tornar uma caipira de marca maior são muito, mas muuuuito grandes.
Vivo e trabalho praticamente no mesmo lugar e apesar de amar minha terra querida, cada ida pra São Paulo tem me dado mais preguiça.
Pensei que nunca fosse dizer isso, afinal eu gosto do fervo, do babado e da confusão. Nada me faz mais feliz e viva que uma voltinha ali na poluição da Paulista. De tempos em tempos eu preciso disso.
Mas descobri que estou desaprendendo a pegar trânsito. Já me diverti bem mais. Sempre usei os congestionamentos pra treinar minha habilidades artísticas cantando alto e interpretando. Daquelas performances de fazer os carros ao meu redor estranharem ou rirem.
A idade vai chegando, a gente vira workaholic, passa a ter mais pressa e menos tolerância. Juro que tentei me divertir cantar e dançar hoje, em plena Rebouças durante 1h pra andar uns 5km. Não rolou. A claustrofobia e uma certa afeição aos meus instintos mais primitivos (já dizia Roberto Jeferson) - como bater ou matar algum motorista fominha ou um motoqueiro com sua buzina e sua folga irritantes - foram tomando conta de mim. Meio síndrome do pânico express. Uma vontade de surtar, puxar o freio de mão e sair correndo pedindo por socorro.
Fiquei olhando ao redor, aquelas motos todas, a caminhãozada soltando fumaça, os engravatados nos jipões querendo passar por cima do meu humilde Palio, pensando quantas histórias estão ali, com a mesma vontade de sair correndo que eu. O quanto de coisa acontece. Flertei com um moço em um A3, ali na esquina da Pamplona (sim, nessa altura eu já havia chegado e dado mil voltas ali pela Paulista caçando um endereço), o perdi pelos semáforos e pouco depois do Masp seu A3 estava parado com dois policiais junto e o moço mexendo no carro. Quebrou? Blitz? Droga? Foi roubado? Vai ser preso? Me deu um desespero, pois eu nunca saberei. O farol abriu e eu fui, com aquelas motos e carros e pessoas e tudo. Fomos. E nunca mais voltaremos.
Voltei pra casa "correndo" (é só força de expressão, demorou horas), quando caí na Castello respirei aliviada, pensando que horror que deve ser encarar isso tudo, todo dia. E agradecendo pelo meu trabalho e quase tudo meu ficar a 5, 10 minutos de mim. Mesmo que seja "só isso" todo dia.
Eu... logo eu?! Tô encaipirando mesmo.